quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Mito da Tartaruga

São muitas as histórias da nossa infância que nos transmitem ensinamentos de maneiras que nem cuidamos(!). Disse-me uma contadora de histórias um dia o seguinte segredo: não há contos/fábulas para crianças; o que há é histórias disfarçadas pelo imaginário infantil que transmitem ideias de adultos e para adultos. Por isso sempre foi, a meu ver, uma grande perda não sensibilizar o público adulto para as necessidades de ler e valorizar contos “infantis” e já nem falo na crescente falta de literacia visual (sim, porque também a existe) a que o público adulto está sujeito. Considera-se a imagem um acessório para crianças, nada mais, desprovida de todo o seu carácter intelectual, artístico e simbólico, porque também é necessário pensamento abstracto para “ler” imagens. E porque hoje a imagem é em muitos casos tratada como auxiliar e não como fim em si mesma, também me custa a entender por que é que a indústria livreira perpetua a ideia de que aquilo que diferencia sobretudo um livro para “as pessoas crescidas” de um livro para os menos graúdos é a presença (ou falta) de imagens. É um estereótipo que já se encontra de tal modo inculcado em todos nós que demorará bastante tempo a reeducar (seguramente quase todos nos lembramos do orgulho que sentimos a primeira vez que pudemos dizer alto e bom som na nossa infância: hoje li um livro sem imagens!). Mas sigamos adiante.
De entre as histórias da nossa infância, também seguramente nalgum dia quase todos nós tropeçámos (fosse por intermédio de um livro ou da nobre arte da oralidade) na fábula d’ “A Tartaruga e a Lebre”. E rezava a história mais ou menos assim.
Um dia certa lebre galgadeira - porque a lebre galgava tomo para mim a liberdade de a classificar deste modo pouco ortodoxo -, em sabendo que a tartaruga a desafiara para uma corrida, acreditou que seguramente estariam a fazer pouco dela. Então não era a lebre a criatura mais rápida da floresta? Reservava-se por isso ao direito de troçar das pernas tortas e trôpegas da tartaruga, tão desengraçadas quanto aquele corpinho rude e enrugado, nem duro nem mole, duro por causa da casca, mole por causa da pele, enfim, um misto de tudo e de nada, de qualquer coisa que não se poderia bem dizer o quê. A lebre tinha, por seu turno, pernas possantes e ligeiras, essenciais para quem tinha que fugir da águia, do lobo ou da raposa na vida diária. Assim sendo, aquele desafio da tartaruga pareceu-lhe totalmente desprovido de bom senso e, por sê-lo, aceitou na hora. Mas haveria alguma dúvida?
Nomeada foi a Raposa como juiz da prova, num raro acesso de paz na cadeia alimentar. E no dia e hora marcada, lá estavam a lebre, a raposa e a tartaruga ocupando os seus lugares naquela que seria a corrida do século na floresta! Uma espécie de David e Golias da velocidade! E todos sabemos como terminou a história de David e Golias…
Não havia, de facto, grandes debates acerca daquela corrida. Assim que a raposa deu o sinal de partida, já a lebre se precipitara para dentro da floresta densa, longe da vista dos demais animais, enquanto a tartaruga lentamente se arrastava de ventre no chão, roçando a relva fina com o bojo que empurrava. Todos conhecemos decerto uma tartaruga nas nossas vidas, geralmente sendo um de dois indivíduos: é aquele que não tendo capacidades ou estofo para uma dada empresa se atira irracionalmente para um desafio que quase de certeza não poderá cumprir (primeiro) ou aquele que certamente tem uma fé imensa no acaso ou no divino e acredita que “Deus providenciará” e ala, que espera-se um milagre nos entretantos (segundo). E seguramente terá sido um misto dos dois, porque já perto da meta a lebre achou por bem tirar uma valente sesta enquanto a sua colega comia o pó da terra à conta de uma corrida infrutífera e na qual não haveria outra possível ganhadora. Estendeu-se então ao comprido sob uma árvore de folhas largas e adormeceu, tão somente. Qual não foi o seu espanto quando, acordada por salvas e urros, viu que a desprezada tartaruga cruzara a linha da meta! Em vão se levantou e correu com todo o poder das suas duas patas, em vão julgou estar a dormir ainda porque era efectivamente verdade, a tartaruga tinha cruzado a meta e ela, a lebre, tinha sido despojada do seu título de animal mais veloz da floresta!... O esforço hercúleo da tartaruga é, portanto, condecorado com a seguinte moralidade: devagar sempre tudo se alcança ou, por outras palavras, devagar se vai ao longe.
Agora, uma ressalva: não pretendo, com este texto, desvalorizar qualquer fundo de veracidade em tão sábia premissa, porque efectivamente também a vox populi nos diz que “depressa e bem não há a quem” (citar a voz do povo é sempre um produto de risco porque este também se engana e muito, embora saibamos que in dubia pro reo e vale sempre a pena confiar um bocadinho na sabedoria popular até prova em contrário). Também não pretendo reivindicar a palma de ouro para a lebre, para o bem ou para o mal faço parte daquela geração que acredita que os arrogantes devem provar um pouco do fel da sua soberba e acreditar na vitória da humildade verdadeira sobre a altivez vã faz sempre este mundo ser (e parecer) um pouco mais bonito. Contudo sempre me quis parecer que esta fábula, tão simples no enredo, devesse ser vista mais do ângulo da lebre que do da tartaruga.
Não nos queiramos enganar: a tartaruga ganhou por sorte. Não foi porque devagar se vai ao longe ou porque devagar tudo se alcança. Foi sorte de principiante, nada mais. Tivesse a lebre sido mais lestra e menos altiva e teria derrotado a tartaruga antes de esta sequer completar um quarto do caminho. A sesta da lebre foi a morte do artista(!). Isso não quer dizer que o vencedor, por seu turno, seja algum artista. Poderemos então nós considerar na verdade a tartaruga como sendo ainda mais soberba que a lebre? Quem no seu perfeito juízo, não tendo uma ideia clara sobre as suas capacidades, desafia quem as tem por natureza ou instinto? Uma história que tinha noventa e nove porcento de probabilidades de sair mal para o lado da irresponsabilidade ingénua da tartaruga terminou, por sorte, na vitória da menos apta. Tivesse a tartaruga desafiado a lebre para alguma das suas habilidades naturais, porque seguramente também as teria e a lebre, em falhando, teria aprendido decerto que a cada um cabem os seus talentos com justeza e que por isso na diferença somos todos iguais. Desafiar um profissional no seu território tem tanto de louco como de altivo. A lebre, por seu turno, falhou miseravelmente à conta da sua própria arrogância, não do talento (nulo) da adversária. Mudar a moralidade da fábula então para “Olho fino e pé ligeiro, que até grandes impérios caíram à conta de futilidades de um momento” ou para “Nunca tomes nada por garantido; até com as tuas capacidades alguém mais atento pode revelar-se aparentemente mais capaz do que tu” parecem-me lições mais honestas e úteis do que vender constantemente a ideia de que com uma atitude de laissez-faire, laissez passer chegaremos na certa aonde desejamos.
Sempre me mostrei apologista da ideia de que para tudo é preciso tempo: as coisas precisam de um timing para se desenvolverem com tronco, pés e cabeça, algo nem sempre disponível nestes tempos modernos de mais celeridade e menos pensamento/qualidade. Não vou desdizer-me nesse assunto. Esta lição da lebre e da tartaruga vem apenas dar luz ao outro lado da moeda a respeito desta temática: o de que até para o tempo é necessário encontrar um óptimo de Pareto entre a tensão e a distensão, entre a acção e a espera, entre o realismo e a fé. A lebre efectivamente podia ter dormido a sesta, mas não tanto tempo, embora o melhor mesmo fosse não ter dormido sesta nenhuma. São escolhas que, em fugindo do óptimo razoável quer por excesso ou por defeito, se revelam como precipitadas ou estéreis.

Em cada um de nós há um pouco de lebre e tartaruga, um pouco de confiança garantida e um pouco de crenças irreflectidas. Ambas são prejudicadas pelo pecado do orgulho desmedido. Contudo, no fim do dia, nunca deixemos que seja a nossa tartaruga a ganhar a corrida! Lembremo-nos de acordar antes a lebre, que o desperdício das nossas qualidades é capaz de ser um pecado tão grande ou maior que a própria soberba!