São
muitas as histórias da nossa infância que nos transmitem ensinamentos de
maneiras que nem cuidamos(!). Disse-me uma contadora de histórias um dia o
seguinte segredo: não há contos/fábulas para crianças; o que há é histórias disfarçadas
pelo imaginário infantil que transmitem ideias de adultos e para adultos. Por
isso sempre foi, a meu ver, uma grande perda não sensibilizar o público adulto
para as necessidades de ler e valorizar contos “infantis” e já nem falo na
crescente falta de literacia visual (sim, porque também a existe) a que o
público adulto está sujeito. Considera-se a imagem um acessório para crianças,
nada mais, desprovida de todo o seu carácter intelectual, artístico e
simbólico, porque também é necessário pensamento abstracto para “ler” imagens.
E porque hoje a imagem é em muitos casos tratada como auxiliar e não como fim
em si mesma, também me custa a entender por que é que a indústria livreira
perpetua a ideia de que aquilo que diferencia sobretudo um livro para “as
pessoas crescidas” de um livro para os menos graúdos é a presença (ou falta) de
imagens. É um estereótipo que já se encontra de tal modo inculcado em todos nós
que demorará bastante tempo a reeducar (seguramente quase todos nos lembramos
do orgulho que sentimos a primeira vez que pudemos dizer alto e bom som na
nossa infância: hoje li um livro sem imagens!). Mas sigamos adiante.
De
entre as histórias da nossa infância, também seguramente nalgum dia quase todos
nós tropeçámos (fosse por intermédio de um livro ou da nobre arte da oralidade)
na fábula d’ “A Tartaruga e a Lebre”. E rezava a história mais ou menos assim.
Um
dia certa lebre galgadeira - porque a lebre galgava tomo para mim a liberdade
de a classificar deste modo pouco ortodoxo -, em sabendo que a tartaruga a
desafiara para uma corrida, acreditou que seguramente estariam a fazer pouco
dela. Então não era a lebre a criatura mais rápida da floresta? Reservava-se
por isso ao direito de troçar das pernas tortas e trôpegas da tartaruga, tão
desengraçadas quanto aquele corpinho rude e enrugado, nem duro nem mole, duro
por causa da casca, mole por causa da pele, enfim, um misto de tudo e de nada,
de qualquer coisa que não se poderia bem dizer o quê. A lebre tinha, por seu
turno, pernas possantes e ligeiras, essenciais para quem tinha que fugir da
águia, do lobo ou da raposa na vida diária. Assim sendo, aquele desafio da
tartaruga pareceu-lhe totalmente desprovido de bom senso e, por sê-lo, aceitou
na hora. Mas haveria alguma dúvida?
Nomeada
foi a Raposa como juiz da prova, num raro acesso de paz na cadeia alimentar. E
no dia e hora marcada, lá estavam a lebre, a raposa e a tartaruga ocupando os
seus lugares naquela que seria a corrida do século na floresta! Uma espécie de
David e Golias da velocidade! E todos sabemos como terminou a história de David
e Golias…
Não
havia, de facto, grandes debates acerca daquela corrida. Assim que a raposa deu
o sinal de partida, já a lebre se precipitara para dentro da floresta densa,
longe da vista dos demais animais, enquanto a tartaruga lentamente se arrastava
de ventre no chão, roçando a relva fina com o bojo que empurrava. Todos
conhecemos decerto uma tartaruga nas nossas vidas, geralmente sendo um de dois
indivíduos: é aquele que não tendo capacidades ou estofo para uma dada empresa
se atira irracionalmente para um desafio que quase de certeza não poderá
cumprir (primeiro) ou aquele que certamente tem uma fé imensa no acaso ou no
divino e acredita que “Deus providenciará” e ala, que espera-se um milagre nos
entretantos (segundo). E seguramente terá sido um misto dos dois, porque já
perto da meta a lebre achou por bem tirar uma valente sesta enquanto a sua
colega comia o pó da terra à conta de uma corrida infrutífera e na qual não
haveria outra possível ganhadora. Estendeu-se então ao comprido sob uma árvore
de folhas largas e adormeceu, tão somente. Qual não foi o seu espanto quando,
acordada por salvas e urros, viu que a desprezada tartaruga cruzara a linha da
meta! Em vão se levantou e correu com todo o poder das suas duas patas, em vão
julgou estar a dormir ainda porque era efectivamente verdade, a tartaruga tinha
cruzado a meta e ela, a lebre, tinha sido despojada do seu título de animal
mais veloz da floresta!... O esforço hercúleo da tartaruga é, portanto, condecorado
com a seguinte moralidade: devagar sempre tudo se alcança ou, por outras
palavras, devagar se vai ao longe.
Agora,
uma ressalva: não pretendo, com este texto, desvalorizar qualquer fundo de
veracidade em tão sábia premissa, porque efectivamente também a vox populi nos diz que “depressa e bem
não há a quem” (citar a voz do povo é sempre um produto de risco porque este
também se engana e muito, embora saibamos que in dubia pro reo e vale sempre a pena confiar um bocadinho na
sabedoria popular até prova em contrário). Também não pretendo reivindicar a
palma de ouro para a lebre, para o bem ou para o mal faço parte daquela geração
que acredita que os arrogantes devem provar um pouco do fel da sua soberba e
acreditar na vitória da humildade verdadeira sobre a altivez vã faz sempre este
mundo ser (e parecer) um pouco mais bonito. Contudo sempre me quis parecer que
esta fábula, tão simples no enredo, devesse ser vista mais do ângulo da lebre
que do da tartaruga.
Não
nos queiramos enganar: a tartaruga ganhou por sorte. Não foi porque devagar se
vai ao longe ou porque devagar tudo se alcança. Foi sorte de principiante, nada
mais. Tivesse a lebre sido mais lestra e menos altiva e teria derrotado a
tartaruga antes de esta sequer completar um quarto do caminho. A sesta da lebre
foi a morte do artista(!). Isso não quer dizer que o vencedor, por seu turno,
seja algum artista. Poderemos então nós considerar na verdade a tartaruga como
sendo ainda mais soberba que a lebre? Quem no seu perfeito juízo, não tendo uma
ideia clara sobre as suas capacidades, desafia quem as tem por natureza ou
instinto? Uma história que tinha noventa e nove porcento de probabilidades de
sair mal para o lado da irresponsabilidade ingénua da tartaruga terminou, por
sorte, na vitória da menos apta. Tivesse a tartaruga desafiado a lebre para
alguma das suas habilidades naturais, porque seguramente também as teria e a
lebre, em falhando, teria aprendido decerto que a cada um cabem os seus
talentos com justeza e que por isso na diferença somos todos iguais. Desafiar
um profissional no seu território tem tanto de louco como de altivo. A lebre,
por seu turno, falhou miseravelmente à conta da sua própria arrogância, não do
talento (nulo) da adversária. Mudar a moralidade da fábula então para “Olho
fino e pé ligeiro, que até grandes impérios caíram à conta de futilidades de um
momento” ou para “Nunca tomes nada por garantido; até com as tuas capacidades
alguém mais atento pode revelar-se aparentemente mais capaz do que tu”
parecem-me lições mais honestas e úteis do que vender constantemente a ideia de
que com uma atitude de laissez-faire,
laissez passer chegaremos na certa aonde desejamos.
Sempre me mostrei apologista da ideia de que para tudo é
preciso tempo: as coisas precisam de um timing para se desenvolverem com
tronco, pés e cabeça, algo nem sempre disponível nestes tempos modernos de mais
celeridade e menos pensamento/qualidade. Não vou desdizer-me nesse assunto.
Esta lição da lebre e da tartaruga vem apenas dar luz ao outro lado da moeda a
respeito desta temática: o de que até para o tempo é necessário encontrar um
óptimo de Pareto entre a tensão e a distensão, entre a acção e a espera, entre
o realismo e a fé. A lebre efectivamente podia ter dormido a sesta, mas não
tanto tempo, embora o melhor mesmo fosse não ter dormido sesta nenhuma. São
escolhas que, em fugindo do óptimo razoável quer por excesso ou por defeito, se
revelam como precipitadas ou estéreis.
Em
cada um de nós há um pouco de lebre e tartaruga, um pouco de confiança
garantida e um pouco de crenças irreflectidas. Ambas são prejudicadas pelo
pecado do orgulho desmedido. Contudo, no fim do dia, nunca deixemos que seja a
nossa tartaruga a ganhar a corrida! Lembremo-nos de acordar antes a lebre, que
o desperdício das nossas qualidades é capaz de ser um pecado tão grande ou
maior que a própria soberba!
