quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Das Palavras

          São nove horas: sei-o pela visita que, de rompante, me invade o pequeno espaço alugado de uma sala numerada com três dígitos. O aviso é o do costume: às nove da noite há espectáculo e até que este acabe cessam também os ensaios individuais dos múltiplos estudantes que, noites após noite, mais ou menos longe de casa, se esforçam para que um país de surdos se embeba no doce som da flauta de Euterpe. Ouvem-se passos apressados no corredor e portas que batem; eu, na minha vez, fecho a tampa do teclado de um piano vertical escuro, meto as partituras na mala e quedo-me sentada no banco, os meus pensamentos ainda a retornar do espaço sideral do qual foram tão brutalmente puxados. Só mais tarde fechei também o cravo: não que eu saiba tocar cravo mas, à semelhança de quem toca, também a curiosidade toca a todos. Lembro-me de ter pensado o quão feminino era o cravo comparativamente com o piano: tanto o som como as dimensões e o pedaço de arte que o cravo é fazem-me pensá-lo quase como uma noiva abandonada no altar, em detrimento de um outro alguém qualquer, vestido de cerimónia, que ora anda erecto ora curvado e que ao longo na história não tomou partidos nem preferiu senhores, das camadas mais altas às mais baixas. Com isto não quero duplas interpretações: o facto de eu considerar o cravo mais semelhante ao espírito feminino e o piano ao masculino não significa obviamente que destino o cravo às mulheres ou o piano aos homens, para além de que muitos certamente encontrarão, com uma sensibilidade diferente, a associação oposta da minha. De qualquer forma saciei a minha curiosidade: transportei o banco do cravo que se encontrava, qual criança amuada, sozinho a um canto da sala e sentei-me. Era uma sensação semelhante à da troca de papéis, um “faz de conta” mental e privado e na peça encenada no palco da minha cabeça eu tocava cravo e não piano.
          Batem-me à porta. Sossego o segurança que entra e afianço-lhe que não toco, que estou apenas a “fazer tempo” (como se tal fosse possível, efectivamente fazer tempo) até que o espectáculo acabe e torno a embrenhar-me nos meus pensamentos. De soslaio o piano sorria com aqueles dentes enormes. É sabido que mesmo a mais triste das peças é “cantada” por um piano sorridente. O piano surge, assim, como um cisne negro que em exaltações de júbilo veste luto e que canta na desgraça. Talvez todos nós, a certa altura da vida, sejamos pianos. A dicotomia homem/mulher assoma-me novamente ao pensamento. Esboço um pequeno monólogo em como a principal causa da persistência da injustiça entre géneros se deve unicamente à existência das palavras. Haveis de reparar no curioso que é o facto de apenas entre humanos e animais domésticos (por estarem mais perto de nós) haver a distinção entre macho e fêmea com denominações diferentes e de, na vida selvagem (salvo a excepção do leão por razões óbvias), essa distinção não existir. Cá existem os homens e as mulheres, os cães e as cadelas, os gatos e as gatas, as ovelhas e os carneiros. Lá fora existem as girafas, os linces, os elefantes, os pássaros, os tigres e basta. Tal facto faz-me pensar se o género não seja, na verdade, uma abstracção social e se, na verdade, a Natureza não conhece géneros. Acredito que só no dia em que desaparecerem as palavras “Homem” e “Mulher” haverá uma mentalização a nível mundial de que na verdade tudo se reduz a “pessoas”.
          Não raras vezes as palavras, por muito úteis que sejam para a compilação do que pelo menos achamos conhecer do mundo e até este texto está em palavras, muitas vezes na verdade limitam a experiência do que nos rodeia. No seu longo poema “Da Natureza” o filósofo pré-socrático Parménides de Eleia expõe exactamente uma ideia semelhante: a deusa, puxada no seu carro astral, ensina ao homem que as palavras o levam ao caminho da opinião e que só a falta das palavras levará à verdade. Isto porque as palavras, para além de fragmentarem o “Ser” de que fala Parménides, é dizer, a unidade (como no caso homem e mulher), também podem pecar vista a questão por outro lado por unificar o que é diferente e com isto levanto-me, pego em quatro cadeiras distintas da sala e explico o conceito a uma plateia invisível. É do senso geral que cada um daqueles objectos é denominado cadeira porque estipulámos que tudo o que tenha um determinado conjunto de características em comum seja uma cadeira. Mas por outro lado serão todas a mesma coisa? Até que ponto o podemos dizer? Uma era azul e tinha três pernas; outra era de abrir e fechar e era vermelha, outra era também vermelha, mas tinha quatro pernas e nem abria nem fechava e a quarta era de madeira. Poderei eu dizer que são todas a mesma coisa? Até que ponto a existência da palavra “cadeira” não é limitativa para o conhecimento das coisas, neste caso, das coisas que reduzimos a serem cadeiras? O Tao Te Ching, livro taoísta de aforismos cuja autoria é atribuída à figura enigmática de Lao Tzu, apresenta uma ideia semelhante quando atesta que “o excesso de palavras conduz a menor compreensão”. Séculos mais tarde David Hume tentaria explorar esta libertação das palavras disfarçadas na forma da razão ao defender que o conhecimento real das coisas deriva da experiência. No final tentemos não ser tão extremistas, mas pensemos como seria a nossa visão do mundo se acaso um dia nos conseguíssemos libertar, por uns breves instantes, simplesmente do nome atribuído a todas as coisas: ao longo dos séculos tem-se prezado a razão e as palavras sobre a “tábua rasa” a que comummente chamaram emoção e não raras vezes esta é vista como sendo de escalão inferior e esquecemo-nos que se as palavras levam ao entendimento só a emoção leva à compreensão. Talvez a emoção seja o nível superior à razão, pois a compreensão advém do entendimento.
          Mesmo a espada das palavras deverá ser manejada de forma sensata, esta espada de dois gumes que desune o que é uno e que une o que é distinto. Contudo não raras vezes a espada vira-se contra aquele que a brande…