sábado, 30 de dezembro de 2017

Do Desconcerto do Tempo

Quinta-feira, vinte e quatro de Outubro de mil novecentos e vinte e nove. A par da chegada da grande depressão, o conhecido crash da bolsa de Wall Street, que mergulharia os países do mundo inteiro numa crise sem precedentes, chegava também ao continente americano a pintora polaca Maria Górska, de pseudónimo artístico Tamara de Lempicka, sem o saber que seria o seu primeiro dia de estada num país que lhe serviria como refúgio no tempo em que os regimes totalitários assomavam a Europa e em que a Juventude Hitleriana dava as primeiras passadas de marcha nos Alpes suíços. Mal sabia também a Mulher de Ouro, quando se deslocou de vez do Velho Continente para o Novo Mundo dez anos depois, em mil novecentos e trinta e nove, que o seu título de rainha da Arte Déco usurpado junto com a liberdade dos povos e que não teria visto de passagem. A mulher emancipada no seu automóvel, a percursora de um “cubismo neoclássico” e a musa das elites, uma vez encoberta sob um apelido nobiliárquico que lhe não era original e num mundo onde a vida passava três e quatro vezes mais depressa, não foi capaz de adaptar a sua técnica limpa e concisa às várias manifestações artísticas que sucediam umas após outras. “Rei morto, rei posto”… e se ainda mal tinha tido tempo para dar os primeiros passos no abstraccionismo – que é dizer a negação do trabalho de uma vida – já a pop art entrava com vigor no espólio artístico americano. Foi a “morte do artista”: reduzida a uma socialite que dava uns “toques” na tela, Tamara de Lempicka, agora baronesa Kuffner, deixaria de expor os seus trabalhos em mil novecentos e sessenta e dois, dezoito anos antes da sua morte. E, pode-se dizer, assim morre um artista sem antes ter deixado de viver.
O desfecho da vida artística de Tamara de Lempicka, tão repleta de sucessos na pacatez do continente europeu, mais não foi que um dos muitos prenúncios daquele que viria a ser um dos muitos fenómenos que caracterizariam o mundo actual: a velocidade. Uma vez restabelecida a ilusão da paz e firmados os pilares da sociedade moderna, cedo se descobriu que esta se move a uma velocidade demasiado alta para se dar ao luxo de ter morar em casas… Por todo o lado explodem as ideias, os estilos, as modas e as correntes. E, neste mundo em constante ebulição, os homens vão marchando, um pé diante do outro, no relógio da mudança. Apenas já não são a Juventude Hitleriana e muito menos se encontram nos Alpes suíços.
Tamara de Lempicka não foi capaz de adaptar a sua técnica brilhante rápido o suficiente para acompanhar o ritmo artístico. A perfeição requer tempo, bem como o talento. E a pintora polaca conheceu o embrião do mundo que não abre as portas ao talento, muito menos à perfeição. Na verdade, nada poderá haver de tão inimigo do perfeito como a velocidade. Banalmente clamada como irmã do progresso, a velocidade surge mais como uma madrasta das velhas histórias que abafa a princesa enteada: hoje, por muito que nos façam crer o contrário graças à – novamente – velocidade da informação, não há o conceito de verdadeira evolução ou desenvolvimento. Isto porque não há tempo para desenvolver o que quer que seja. As coisas sucedem-se umas às outras a uma velocidade vertiginosa e não esperam pela velocidade do pensamento sobre elas. O mesmo se pode falar no mundo artístico: hoje dificilmente encontraremos, no meio das dezenas de correntes que surgem todos os dias, uma que esteja verdadeiramente consolidada, pensada e construída. Há, isso sim, todo um extenso “menu” de ideias mal enfornadas. Exigem-nos a criação, mas não nos falam do rigor. Querem mais casas e já não sabem construir pilares. Mandam-nos virar páginas de um caderno em branco sem permitirem que o escrevamos. E num mundo em que abundam os títulos profissionais (os substitutos modernos da nomenclatura nobiliárquica. Hoje quantos têm o título de Mestre sem sequer terem exercido uma profissão ou sem conhecerem exactamente o peso do título que carregam…), damo-nos conta que, na verdade, devido à falta de aprofundamento das ideias, poucos são os verdadeiros profissionais de coisa alguma…

Precisamos de tempo e o tempo é o grande impulsionador da inovação, do brilho, da perfeição e da técnica. Quem almeja superar-se a si mesmo e, sobretudo, acredita num futuro melhor para os homens, terá que acreditar também na importância do tempo que é no entender de muitos, paradoxalmente, “perder tempo”. É necessário abrandar o compasso do “desconcerto do mundo”, como dizia o Poeta, para que possamos fazer música. E por que o estranhamos, se até a própria música é, ela mesma, também produto do pensamento e da razão?