Quinta-feira,
vinte e quatro de Outubro de mil novecentos e vinte e nove. A par da chegada da
grande depressão, o conhecido crash da bolsa de Wall Street, que mergulharia os
países do mundo inteiro numa crise sem precedentes, chegava também ao
continente americano a pintora polaca Maria Górska, de pseudónimo artístico
Tamara de Lempicka, sem o saber que seria o seu primeiro dia de estada num país
que lhe serviria como refúgio no tempo em que os regimes totalitários assomavam
a Europa e em que a Juventude Hitleriana dava as primeiras passadas de marcha
nos Alpes suíços. Mal sabia também a Mulher de Ouro, quando se deslocou de vez
do Velho Continente para o Novo Mundo dez anos depois, em mil novecentos e
trinta e nove, que o seu título de rainha da Arte Déco usurpado junto com a
liberdade dos povos e que não teria visto de passagem. A mulher emancipada no
seu automóvel, a percursora de um “cubismo neoclássico” e a musa das elites,
uma vez encoberta sob um apelido nobiliárquico que lhe não era original e num
mundo onde a vida passava três e quatro vezes mais depressa, não foi capaz de
adaptar a sua técnica limpa e concisa às várias manifestações artísticas que
sucediam umas após outras. “Rei morto, rei posto”… e se ainda mal tinha tido
tempo para dar os primeiros passos no abstraccionismo – que é dizer a negação
do trabalho de uma vida – já a pop art entrava com vigor no espólio artístico
americano. Foi a “morte do artista”: reduzida a uma socialite que dava uns
“toques” na tela, Tamara de Lempicka, agora baronesa Kuffner, deixaria de expor
os seus trabalhos em mil novecentos e sessenta e dois, dezoito anos antes da
sua morte. E, pode-se dizer, assim morre um artista sem antes ter deixado de
viver.
O
desfecho da vida artística de Tamara de Lempicka, tão repleta de sucessos na
pacatez do continente europeu, mais não foi que um dos muitos prenúncios
daquele que viria a ser um dos muitos fenómenos que caracterizariam o mundo
actual: a velocidade. Uma vez restabelecida a ilusão da paz e firmados os
pilares da sociedade moderna, cedo se descobriu que esta se move a uma
velocidade demasiado alta para se dar ao luxo de ter morar em casas… Por todo o
lado explodem as ideias, os estilos, as modas e as correntes. E, neste mundo em
constante ebulição, os homens vão marchando, um pé diante do outro, no relógio
da mudança. Apenas já não são a Juventude Hitleriana e muito menos se encontram
nos Alpes suíços.
Tamara
de Lempicka não foi capaz de adaptar a sua técnica brilhante rápido o
suficiente para acompanhar o ritmo artístico. A perfeição requer tempo, bem
como o talento. E a pintora polaca conheceu o embrião do mundo que não abre as
portas ao talento, muito menos à perfeição. Na verdade, nada poderá haver de
tão inimigo do perfeito como a velocidade. Banalmente clamada como irmã do
progresso, a velocidade surge mais como uma madrasta das velhas histórias que
abafa a princesa enteada: hoje, por muito que nos façam crer o contrário graças
à – novamente – velocidade da informação, não há o conceito de verdadeira
evolução ou desenvolvimento. Isto porque não há tempo para desenvolver o que
quer que seja. As coisas sucedem-se umas às outras a uma velocidade vertiginosa
e não esperam pela velocidade do pensamento sobre elas. O mesmo se pode falar
no mundo artístico: hoje dificilmente encontraremos, no meio das dezenas de
correntes que surgem todos os dias, uma que esteja verdadeiramente consolidada,
pensada e construída. Há, isso sim, todo um extenso “menu” de ideias mal
enfornadas. Exigem-nos a criação, mas não nos falam do rigor. Querem mais casas
e já não sabem construir pilares. Mandam-nos virar páginas de um caderno em
branco sem permitirem que o escrevamos. E num mundo em que abundam os títulos
profissionais (os substitutos modernos da nomenclatura nobiliárquica. Hoje
quantos têm o título de Mestre sem sequer terem exercido uma profissão ou sem conhecerem
exactamente o peso do título que carregam…), damo-nos conta que, na verdade,
devido à falta de aprofundamento das ideias, poucos são os verdadeiros
profissionais de coisa alguma…
Precisamos
de tempo e o tempo é o grande impulsionador da inovação, do brilho, da
perfeição e da técnica. Quem almeja superar-se a si mesmo e, sobretudo,
acredita num futuro melhor para os homens, terá que acreditar também na
importância do tempo que é no entender de muitos, paradoxalmente, “perder
tempo”. É necessário abrandar o compasso do “desconcerto do mundo”, como dizia
o Poeta, para que possamos fazer música. E por que o estranhamos, se até a
própria música é, ela mesma, também produto do pensamento e da razão?
