quinta-feira, 1 de março de 2018

Das aventuras da Música em Portugal


Foi em 1935 que saiu a primeira versão impressa das obras para teclado de José António Carlos Seixas. Desta versão, o primeiro volume de “Cravistas Portugueses”, generosamente custeada pela editora B. Schott’s Söhne, constavam apenas doze das centenas de sonatas que o compositor teria criado durante os seus parcos trinta e oito anos de vida e fazem hoje parte do espólio que sobreviveu, quer ao tempo, quer (imagine-se!) ao incêndio que deflagrou no Palácio da Ajuda de Lisboa aquando o terramoto de 1755. Longe de apresentarem o arrojo do mestre de Coimbra, mas ainda assim um marco importante na percepção estrangeira sobre a música portuguesa, esta dúzia de sonatas primou de atenção de musicólogos e intérpretes internacionais. Estava lançada a primeira pedra na reconstrução de um território há muito perdido nas estepes nacionais, o da música do passado português.
A Sonata nº 8 em Dó Maior faz parte desse território. Dotada de um espírito pomposo mas nada provinciano (ou não adoptassem as várias sonatas de Carlos Seixas um estilo declaradamente lusitano), esta sonata, junto com as restantes, anunciou os primórdios da forma-sonata clássica. Com efeito, apesar de no seu tempo terem sido chamadas “tocatas” por possuírem uma estrutura bipartida, o facto é que nas sonatas para teclado de Carlos Sextas podemos ver o estado embrionário da noção de “andamento”: as “tocatas”, para além da parte inicial e da quase-sempre-dança final, apresentam uma ponte musical intermédia de carácter contrastante, muitas vezes melodioso e introspectivo, prenúncio dos segundos andamentos lentos e galantes da sonata clássica. Ainda que Carlos Seixas denotasse uma forte resistência em adoptar estilos estrangeiros, não poderemos negar as influências francesas e sobretudo italianas nas obras para teclas do compositor, não fora então o seu convívio com Domenico Sclarlatti, ele próprio preceptor de música da princesa Maria Bárbara de Bragança durante um curto espaço de tempo, até à mudança da infanta portuguesa para Madrid por ocasião do seu casamento com o príncipe herdeiro da coroa espanhola.
Contudo, fora Portugal um país central e as obras do mestre de Coimbra teriam voado para mais altas paragens! Não é no pássaro que está a capacidade para voar e sim nas asas e José António Carlos Seixas (não confundamos capacidade com habilidade) quedou-se pelos céus solarengos mas muito pouco abertos do território português. Não se julgue portanto que tal se devesse a falta de talento ou ainda de empreendimento, ou não fora Carlos Seixas o compositor da corte numa época em que brotavam miniaturas não menos dignas do esplendor de Versalhes levadas a cabo por D. João V, o Magnânimo. Magnânima poderia ter sido também a sua vontade que, à semelhança do que sucederia nos séculos posteriores, o que nasce em Portugal em Portugal está, neste “canteiro à beira mar plantado” de difícil acesso (por diversas vezes Portugal pecou simplesmente devido à sua posição geográfica, tão útil para “dar mundos novos ao mundo”, mas tão ingrata para trazer o mundo para dentro!) e para o qual, se era difícil chegarem as novidades artísticas do resto da Europa, também difícil era para um artista português mostrar o seu rosto lá fora. As veias da criação morriam em Espanha, o coração da Península e, se acaso derramassem uma gota que fosse para lá dos montes de Pirene, tal se afigurava um acontecimento fortuito cujas repercussões raramente voltavam à origem. Assim esteve a música de Carlos Seixas até ao início do século XX, sufocada na própria terra em que deu flor e tendo como único perfume o cheiro bafiento de colecções particulares e de arquivos por muito tempo intocáveis. Lembremos o modesto lírio-do-vale que, pelas noites de Maio, agracia a Natureza com o seu misterioso mas distinto perfume. Não poderemos encontrar um lírio-do-vale vibrando jubiloso com as boninas durante os cálidos dias de Primavera. A Beleza e a Criação são, elas própria, produtos das existência das sombras em superfícies iluminadas. Luz descompassada torna o mundo disforme. É a sombra dá a identidade. E, perguntemo-nos: até que ponto a redescoberta e valorização do que há de mais sombrio e oculto no passado português não será outro futuro mundo a dar ao mundo?






sábado, 27 de janeiro de 2018

Do Canto Gregoriano e do Conhecimento


Faz não muito tempo que, passeando pela calçada baça da rua de Cedofeita, numa tarde já fremente de algum ardor natalício, decidi satisfazer um dos meus pequenos desejos e levar comigo um livro da livraria das Edições Paulinas. No final e sem exagero, após cerca de duas horas a percorrer as estantes a pente fino com os olhos, decidi abrir mão de uma módica quantia a troco de um manual de canto gregoriano. Futilidade minha talvez, pensei por uns instantes… Afinal, que serventia teria para mim aquele livro? Não pretendo tornar-me salmista (pelo menos num futuro próximo, porque o futuro distante ninguém o sabe) e tão pouco preciso de ler, muito menos entoar, música religiosa maioritariamente medieval e muito menos entoá-la. Contudo foi uma tarefa a que me propus com certo apreço: pelo menos não poderia dizer que não estava a entrar no espírito da quadra. Assim levei o livro ao balcão, troquei o papel por outro papel, o que não deixa de ser irónico se equiparado o valor, real ou abstracto, de ambos, rejeitei o saco como de costume e afastei-me em direcção a lugar nenhum. Folheei as primeiras páginas, um olho na rua e outro nas ruas, não fosse por acaso ser antes eu a atropelar um carro e, por uns segundos, recordei o meu dilema inicial e confesso ter sentido até um nó no ventre. Sempre que compro um livro sinto, por momentos, um leve pesar e parte do meu estômago entoa um quase requiem pelo dinheiro enterrado na caixa registradora. Não que, postas as coisas na mesa, tenha sido um gasto fútil; na verdade economizei para aquele fim. Ainda assim não consigo deixar de perder a fé e de perguntar: mas será mesmo necessário? Não creio vir a precisar algum dia da minha vida de ler canto gregoriano… E ainda assim, chego todas as vezes à conclusão, talvez precise todos os dias daquilo que leio e conheço e de que na prática não preciso… O facto é que acredito que todo o conhecimento, por mais que nos tenham acostumado ao contrário, é útil indiferenciadamente e em qualquer estilo de vida em que se conhece. Acredito que há utilidade directa e indirecta, sendo que a primeira é rapidamente aplicável na vida prática e a segunda é a essência. Uma é o cálice da flor, a outra o perfume. Por muito bela que seja, escolhemos para nosso deleite a que tem o melhor dos perfumes e por muito útil que seja ao pássaro voar, o mundo seria seguramente mais triste se lhe faltasse o canto. Contudo não se diga que as faculdades indirectas não são úteis; são, isso sim, o pano de fundo. O conhecimento imediatamente prático é a acção; o restante é o modo de agir.
Vivemos numa sociedade de tecnocratas. Pesamos o lucro imediato e concreto por oposição a uma outra infinidade de lucros que nos esquecemos que são úteis. A dada altura esquecem-se de nos ensinar que o conhecimento de valor não é apenas aquele que se enquadra na pequena fracção de ciência que escolhemos dedicar-nos o resto da vida, espera-se… São salutares, a título de exemplo, os casos de estudantes de música que conhecem de nome o professor qualquer coisa da escola de para lá das fronteiras que foi discípulo de outro igual e que por sua vez teve pelo período de dois meses um aluno que hoje dá aulas às terças e aos sábados no conservatório de outro lugar além-mundo mas que, quando indagados, não fazem ideia de quem foi Almeida Garrett, isto porque os há e contribui para o desmoronar do que eu acreditei ser o ideal do músico, melhor ainda, do artista que é uno com a cultura… mas poderia também citar o estudante de direito que cita uma frase o Tratado da Política de Aristóteles sem nunca ter folheado uma página ou outros tantos exemplos. Claro está que esta não é uma coroa que assente na cabeça de todos, felizmente… Mas a tecnocracia intelectual é um embrião que plantam na terra das mentes férteis dos jovens desde cedo e que, invariavelmente, em solos mais férteis acabarão por dar fruto. Pregam-nos desde cedo que devemos estipular metas e muito bem o fazem e ensinam-nos a caminhar na direcção dessas metas; mas raras vezes no ensinam que para além dos nossos pés treinados existem outros meios de transporte. Estes meios de transporte são o conhecimento de utilidade indirecta. Para mais um meio de transporte não se desloca por si só: é necessário um homem que o faça mover. No mesmo sentido todo e qualquer tipo de conhecimento, do mais ao aparentemente menos pertinente para a nossa vida prática pode, a dada altura, ajudar-nos a atingir os nossos fins… desde que para isso, tal está, peguemos no volante e o conduzamos nessa direcção.
Da condução da nossa vida e, portanto, de todas as nossas vidas individuais, depende também a condução do mundo. Realisticamente falando não precisamos de uma paz armada para garantir a felicidade e os direitos no mundo: o conceito de "paz na guerra" é um oxímoro demasiado ambivalente para ser exequível e auto-anula-se. Serei talvez ingénua, mas acredito que só a globalização do conhecimento na formação dos indivíduos poderá um dia construir uma verdadeira sociedade feliz e justa; não tanto com a sofocracia da República apresentada por Platão em que os sábios governam os restantes, mas em que o sábio será uma realidade em todos os indivíduos e não apenas em alguns. Só o conhecimento pode livrar genuinamente o mundo dos seus males. O conhecimento leva à compreensão mas quem conhece também necessário que compreenda. “Procura o conhecimento desde o berço à sepultura.” Diz-nos um hadith do Islão. E não é por acaso que é desta religião em concreto que escolho uma frase que faça eco deste texto.
Atrevamo-nos a conhecer sem calculismo e acreditar na viabilidade no conhecimento pelo prazer de conhecer. Convertermo-nos ao conhecimento é convertermo-nos à verdadeira natureza humana. Acredito que a missão do ser humano neste mundo seja conhecer. Porque só conhecendo se pode ver e conhecer para além das barreiras do senso-comum e da apreensão de ideias imediatas. Porque escolher o caminho do conhecimento é escolher a via da razão emoção e da justiça (porque quanto conhecível não se conhece tão somente sentindo!). Conhecendo se conhece; e quem conhece louva em si todas as maravilhas do Mundo...