Faz
não muito tempo que, passeando pela calçada baça da rua de Cedofeita, numa
tarde já fremente de algum ardor natalício, decidi satisfazer um dos meus
pequenos desejos e levar comigo um livro da livraria das Edições Paulinas. No
final e sem exagero, após cerca de duas horas a percorrer as estantes a pente
fino com os olhos, decidi abrir mão de uma módica quantia a troco de um manual
de canto gregoriano. Futilidade minha talvez, pensei por uns instantes… Afinal,
que serventia teria para mim aquele livro? Não pretendo tornar-me salmista
(pelo menos num futuro próximo, porque o futuro distante ninguém o sabe) e tão
pouco preciso de ler, muito menos entoar, música religiosa maioritariamente
medieval e muito menos entoá-la. Contudo foi uma tarefa a que me propus com
certo apreço: pelo menos não poderia dizer que não estava a entrar no espírito
da quadra. Assim levei o livro ao balcão, troquei o papel por outro papel, o
que não deixa de ser irónico se equiparado o valor, real ou abstracto, de
ambos, rejeitei o saco como de costume e afastei-me em direcção a lugar nenhum.
Folheei as primeiras páginas, um olho na rua e outro nas ruas, não fosse por
acaso ser antes eu a atropelar um carro e, por uns segundos, recordei o meu
dilema inicial e confesso ter sentido até um nó no ventre. Sempre que compro um
livro sinto, por momentos, um leve pesar e parte do meu estômago entoa um quase
requiem pelo dinheiro enterrado na caixa registradora. Não que, postas as
coisas na mesa, tenha sido um gasto fútil; na verdade economizei para aquele
fim. Ainda assim não consigo deixar de perder a fé e de perguntar: mas será
mesmo necessário? Não creio vir a precisar algum dia da minha vida de ler canto
gregoriano… E ainda assim, chego todas as vezes à conclusão, talvez precise
todos os dias daquilo que leio e conheço e de que na prática não preciso… O
facto é que acredito que todo o conhecimento, por mais que nos tenham
acostumado ao contrário, é útil indiferenciadamente e em qualquer estilo de
vida em que se conhece. Acredito que há utilidade directa e indirecta, sendo
que a primeira é rapidamente aplicável na vida prática e a segunda é a
essência. Uma é o cálice da flor, a outra o perfume. Por muito bela que seja,
escolhemos para nosso deleite a que tem o melhor dos perfumes e por muito útil
que seja ao pássaro voar, o mundo seria seguramente mais triste se lhe faltasse
o canto. Contudo não se diga que as faculdades indirectas não são úteis; são,
isso sim, o pano de fundo. O conhecimento imediatamente prático é a acção; o
restante é o modo de agir.
Vivemos
numa sociedade de tecnocratas. Pesamos o lucro imediato e concreto por oposição
a uma outra infinidade de lucros que nos esquecemos que são úteis. A dada
altura esquecem-se de nos ensinar que o conhecimento de valor não é apenas
aquele que se enquadra na pequena fracção de ciência que escolhemos dedicar-nos
o resto da vida, espera-se… São salutares, a título de exemplo, os casos de
estudantes de música que conhecem de nome o professor qualquer coisa da escola
de para lá das fronteiras que foi discípulo de outro igual e que por sua vez
teve pelo período de dois meses um aluno que hoje dá aulas às terças e aos
sábados no conservatório de outro lugar além-mundo mas que, quando indagados,
não fazem ideia de quem foi Almeida Garrett, isto porque os há e contribui para
o desmoronar do que eu acreditei ser o ideal do músico, melhor ainda, do
artista que é uno com a cultura… mas poderia também citar o estudante de
direito que cita uma frase o Tratado da Política de Aristóteles sem nunca ter
folheado uma página ou outros tantos exemplos. Claro está que esta não é uma
coroa que assente na cabeça de todos, felizmente… Mas a tecnocracia intelectual
é um embrião que plantam na terra das mentes férteis dos jovens desde cedo e
que, invariavelmente, em solos mais férteis acabarão por dar fruto. Pregam-nos
desde cedo que devemos estipular metas e muito bem o fazem e ensinam-nos a
caminhar na direcção dessas metas; mas raras vezes no ensinam que para além dos
nossos pés treinados existem outros meios de transporte. Estes meios de
transporte são o conhecimento de utilidade indirecta. Para mais um meio de
transporte não se desloca por si só: é necessário um homem que o faça mover. No
mesmo sentido todo e qualquer tipo de conhecimento, do mais ao aparentemente menos
pertinente para a nossa vida prática pode, a dada altura, ajudar-nos a atingir
os nossos fins… desde que para isso, tal está, peguemos no volante e o
conduzamos nessa direcção.
Da condução da nossa vida e,
portanto, de todas as nossas vidas individuais, depende também a condução do
mundo. Realisticamente falando não precisamos de uma paz armada para garantir a
felicidade e os direitos no mundo: o conceito de "paz na guerra" é um
oxímoro demasiado ambivalente para ser exequível e auto-anula-se. Serei talvez
ingénua, mas acredito que só a globalização do conhecimento na formação dos
indivíduos poderá um dia construir uma verdadeira sociedade feliz e justa; não
tanto com a sofocracia da República apresentada por Platão em que os sábios
governam os restantes, mas em que o sábio será uma realidade em todos os
indivíduos e não apenas em alguns. Só o conhecimento pode livrar genuinamente o
mundo dos seus males. O conhecimento leva à compreensão mas quem conhece também
necessário que compreenda. “Procura o
conhecimento desde o berço à sepultura.” Diz-nos um hadith do Islão. E não é por acaso que é desta religião em concreto
que escolho uma frase que faça eco deste texto.
Atrevamo-nos a conhecer sem
calculismo e acreditar na viabilidade no conhecimento pelo prazer de conhecer.
Convertermo-nos ao conhecimento é convertermo-nos à verdadeira natureza humana.
Acredito que a missão do ser humano neste mundo seja conhecer. Porque só conhecendo
se pode ver e conhecer para além das barreiras do senso-comum e da apreensão de
ideias imediatas. Porque escolher o caminho do conhecimento é escolher a via da
razão emoção e da justiça (porque quanto conhecível não se conhece tão somente
sentindo!). Conhecendo se conhece; e quem conhece louva em si todas as
maravilhas do Mundo...
