São
quase cinco da tarde; pequenina, de rosto engelhado pelas horas passadas ao sol
e de passinho apressado, nas mãozinhas pequeninas a malinha de pano, a boina à
cabeça e a música no peito e de uma flor tendo o nome, lá vai a dona Margarida
pelas ruas desordenadas e cinzentas do Olival, uma vila no meio da natureza que
não é de natureza nenhuma e onde os campos e os canastros tentam conviver de
forma pacífica e encontrar o seu espaço por entre as moradias descaracterizadas
e dispersas no horizonte. À chegada, como de costume, tira a chave do bolso,
abre as portas do centro paroquial (é assim que a dona Margarida se afigura:
uma espécie de alcaide dos tempos modernos) e dirige-se para aquela que aos
domingos é a sacristia com um único propósito: estudar piano. Não que não
tivesse qualquer familiar ligado à música: na verdade até tinha o irmão, que
aprendera oboé na sua juventude. Mas os tempos ingratos eram outros e a (na
altura) menina Margarida, não obstante o seu desejo e evidente vocação para a
“arte das musas”, foi obrigada a servir como criada nas casas mais abastadas
que a sua, que isto das artes não era coisa para meninas e, quando o era, tal
seria apenas como mais um adorno para uma boneca de porcelana. As bonecas de
palha, essas, tinham que se contentar com a secura amarga da servitude e da
abnegação; mas, por vezes, por entre as palhinhas torcidas e retorcidas das
quais eram feitas, esboçava-se timidamente o pequeno rebento de uma flor levada
ao engano por entre as ervas secas… E não raras vezes essa flor era uma
margarida…
A
dona Margarida, com umas boas dezenas de Primaveras em flor e outras tantas
pétalas maceradas - de saúde delicada (mas, ao mesmo tempo, resistente, ou não
chamassem os latinos de “beleza perene” à fragilidade aparente da margarida),
um olho que se esqueceu de como ver, a opressão no peito causada pela asma que
a persegue desde a infância e a cabeça já gasta pelas múltiplas cirurgias e
outras invasões a que esteve sujeita, isto ao ponto de lhe reduzir as
capacidades de memorização e retenção de conhecimentos a um terço - … bem, ia
dizer eu, a dona Margarida atreveu-se, ainda que de forma mais ou menos
hesitante (pois todos os actos de coragem são iniciados sob o véu da
hesitação), a cumprir o seu sonho de juventude. Aprender música, imagine-se!
Aventurar-se, com todas as circunstâncias a que esteve (e está) sujeita, numa
área para a qual, ouve-se, muitas vezes nem um jovem ou criança conseguem
vingar, parece uma missão infrutífera, não fora o facto de (e agora é aqui que
eu entro com o conhecimento de causa), enquanto professora da dona Margarida,
poder afirmar exactamente o oposto do que o senso comum esperaria. A dona
Margarida teve dificuldades, é certo. Mas isso também uma criança ou um jovem
as tem e vão encontra-las ao longo da aprendizagem destinada à sua idade, mesmo
aqueles que gozam de perfeita saúde. Apesar da minha idade ter muitas vezes uma
relação de sinonímia com falta de experiência, aquilo que fui constatando e que
aprendi a tomar como certo ao longo do meu percurso estudantil é que não
existem melhores nem piores lutadores na batalha da vida: o que existe são
armas diferentes e, portanto, diferentes estilos de combate. E em qualquer área
da nossa existência, até nas do saber, este preceito pode ser verificado.
Fala-se
pouco de pedagogia para adultos. Fala-se muito (e bem que assim o seja) de
pedagogia para crianças. Na verdade, nunca houve melhor altura para se ser
criança nem tanta preocupação com o bem-estar infantil como hoje, mas a
aprendizagem, esquecemo-nos muitas vezes, não se fica por uns míseros doze anos
de escolaridade obrigatória. Compreendo que para muita gente, contudo, a
realidade seja essa: a certa altura todo o indivíduo chega a uma idade em que é
esperado enquanto executor e não pensador. A cabeça, essa, tem que reagir e
adapta-se. Eventualmente, por uma questão meramente selectiva, eliminam-se as
sinapses que aparentemente não são necessárias à vida (pelo menos ao nosso
ideal moderno de vida) e a cabeça torna-se mais rígida e adversa a novos
conhecimentos: mas isto não por falta de capacidade (não confundamos capacidade
com potencialidade, que esta última acredito que se vá esbatendo ao longo do
tempo) mas sim porque deixam de ser criadas sinapses novas. Há já muito que foi
desacreditada a ideia de que o cérebro estanca: sabe-se hoje que muda toda a
vida do indivíduo e até de forma, consoante os nossos pensamentos
predominantes. A máquina humana é, de facto, um invento fascinante. Contudo
esta falta de elasticidade acreditada deve-se mais a valores do que
propriamente a incapacidade: mais que no envelhecimento, a tónica encontra-se
na rigidez do nosso estilo de vida. O nosso perfil adulto também nos pode
causar entraves: com a idade perdemos a ingenuidade das crianças e os olhos com
que vemos qualquer coisa de novo como uma maravilha a descobrir. Eventualmente
ensinam-nos a desconfiança e a rigidez de ideias, sobretudo o hábito de ver as
coisas de forma mais complicada que a realidade. O mundo que antes nos era
claro torna-se distorcido e oculto sob as cortinas da insegurança. Isto porque
ser-se adulto, na verdade, é ser-se inseguro.
Tenho
uma fé extrema no potencial humano: repele-me pensar (e talvez eu até esteja
errada) que uma criança tem mais facilidade que um adulto para aprender um novo
domínio. Como poderá isso ser sequer possível, se um adulto tem, à partida, um
entendimento lógico mais apurado? Mais que as cerebrais, uma vez destruídas as
barreiras psicológicas e sociais que impedem um adulto de aprender, chegamos à
conclusão que as dificuldades são as mesmas mas em polaridades opostas. Não
raras vezes esse é o argumento mais usado por adultos corajosos em aprender
quando lhes parece que falham numa tarefa: o argumento de que “se eu fosse uma
criança seria outra coisa”. Aos meus poucos alunos que me interpelam com essa
hipótese, dou por mim a responder o mesmo: mas com certeza. Se fosse criança
teria as facilidades que não tem em adulto; mas em adulto tem as facilidades
que não tem em criança. O mesmo se aplica às dificuldades. Contudo não raras
vezes a sociedade pode ser implacável: a título de exemplo, conheci a dada
altura uma rapariga da minha idade que se quis aventurar também nas malhas da
música. Tal como eu, pouco mais que duas dezenas de Primaveras tinha visto e
contactou um professor da nossa faixa etária. A resposta foi peremptória: que
estas coisas têm uma idade própria e que não valia a pena. Ora uma situação
destas (que mais não é do que um pequeno espelho da maneira como é vista a
pedagogia para adultos) é, com todo o peso que possa ser colocado nesta
palavra, no mínimo aberrante e, sobretudo, elitista.
Até
lá a dona Margarida toca e vai sonhando, o olho que se esqueceu de ver perdido
talvez nalgo mais para além da cor… Segue para o centro paroquial quando
estudar na mesa de madeira já não basta e vai cantando. E é essa canção que
queria partilhar convosco e que guardarei com estima num jardim perdido junto
ao peito…

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