quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Margaridas e Pianos

São quase cinco da tarde; pequenina, de rosto engelhado pelas horas passadas ao sol e de passinho apressado, nas mãozinhas pequeninas a malinha de pano, a boina à cabeça e a música no peito e de uma flor tendo o nome, lá vai a dona Margarida pelas ruas desordenadas e cinzentas do Olival, uma vila no meio da natureza que não é de natureza nenhuma e onde os campos e os canastros tentam conviver de forma pacífica e encontrar o seu espaço por entre as moradias descaracterizadas e dispersas no horizonte. À chegada, como de costume, tira a chave do bolso, abre as portas do centro paroquial (é assim que a dona Margarida se afigura: uma espécie de alcaide dos tempos modernos) e dirige-se para aquela que aos domingos é a sacristia com um único propósito: estudar piano. Não que não tivesse qualquer familiar ligado à música: na verdade até tinha o irmão, que aprendera oboé na sua juventude. Mas os tempos ingratos eram outros e a (na altura) menina Margarida, não obstante o seu desejo e evidente vocação para a “arte das musas”, foi obrigada a servir como criada nas casas mais abastadas que a sua, que isto das artes não era coisa para meninas e, quando o era, tal seria apenas como mais um adorno para uma boneca de porcelana. As bonecas de palha, essas, tinham que se contentar com a secura amarga da servitude e da abnegação; mas, por vezes, por entre as palhinhas torcidas e retorcidas das quais eram feitas, esboçava-se timidamente o pequeno rebento de uma flor levada ao engano por entre as ervas secas… E não raras vezes essa flor era uma margarida…
A dona Margarida, com umas boas dezenas de Primaveras em flor e outras tantas pétalas maceradas - de saúde delicada (mas, ao mesmo tempo, resistente, ou não chamassem os latinos de “beleza perene” à fragilidade aparente da margarida), um olho que se esqueceu de como ver, a opressão no peito causada pela asma que a persegue desde a infância e a cabeça já gasta pelas múltiplas cirurgias e outras invasões a que esteve sujeita, isto ao ponto de lhe reduzir as capacidades de memorização e retenção de conhecimentos a um terço - … bem, ia dizer eu, a dona Margarida atreveu-se, ainda que de forma mais ou menos hesitante (pois todos os actos de coragem são iniciados sob o véu da hesitação), a cumprir o seu sonho de juventude. Aprender música, imagine-se! Aventurar-se, com todas as circunstâncias a que esteve (e está) sujeita, numa área para a qual, ouve-se, muitas vezes nem um jovem ou criança conseguem vingar, parece uma missão infrutífera, não fora o facto de (e agora é aqui que eu entro com o conhecimento de causa), enquanto professora da dona Margarida, poder afirmar exactamente o oposto do que o senso comum esperaria. A dona Margarida teve dificuldades, é certo. Mas isso também uma criança ou um jovem as tem e vão encontra-las ao longo da aprendizagem destinada à sua idade, mesmo aqueles que gozam de perfeita saúde. Apesar da minha idade ter muitas vezes uma relação de sinonímia com falta de experiência, aquilo que fui constatando e que aprendi a tomar como certo ao longo do meu percurso estudantil é que não existem melhores nem piores lutadores na batalha da vida: o que existe são armas diferentes e, portanto, diferentes estilos de combate. E em qualquer área da nossa existência, até nas do saber, este preceito pode ser verificado.
Fala-se pouco de pedagogia para adultos. Fala-se muito (e bem que assim o seja) de pedagogia para crianças. Na verdade, nunca houve melhor altura para se ser criança nem tanta preocupação com o bem-estar infantil como hoje, mas a aprendizagem, esquecemo-nos muitas vezes, não se fica por uns míseros doze anos de escolaridade obrigatória. Compreendo que para muita gente, contudo, a realidade seja essa: a certa altura todo o indivíduo chega a uma idade em que é esperado enquanto executor e não pensador. A cabeça, essa, tem que reagir e adapta-se. Eventualmente, por uma questão meramente selectiva, eliminam-se as sinapses que aparentemente não são necessárias à vida (pelo menos ao nosso ideal moderno de vida) e a cabeça torna-se mais rígida e adversa a novos conhecimentos: mas isto não por falta de capacidade (não confundamos capacidade com potencialidade, que esta última acredito que se vá esbatendo ao longo do tempo) mas sim porque deixam de ser criadas sinapses novas. Há já muito que foi desacreditada a ideia de que o cérebro estanca: sabe-se hoje que muda toda a vida do indivíduo e até de forma, consoante os nossos pensamentos predominantes. A máquina humana é, de facto, um invento fascinante. Contudo esta falta de elasticidade acreditada deve-se mais a valores do que propriamente a incapacidade: mais que no envelhecimento, a tónica encontra-se na rigidez do nosso estilo de vida. O nosso perfil adulto também nos pode causar entraves: com a idade perdemos a ingenuidade das crianças e os olhos com que vemos qualquer coisa de novo como uma maravilha a descobrir. Eventualmente ensinam-nos a desconfiança e a rigidez de ideias, sobretudo o hábito de ver as coisas de forma mais complicada que a realidade. O mundo que antes nos era claro torna-se distorcido e oculto sob as cortinas da insegurança. Isto porque ser-se adulto, na verdade, é ser-se inseguro.
Tenho uma fé extrema no potencial humano: repele-me pensar (e talvez eu até esteja errada) que uma criança tem mais facilidade que um adulto para aprender um novo domínio. Como poderá isso ser sequer possível, se um adulto tem, à partida, um entendimento lógico mais apurado? Mais que as cerebrais, uma vez destruídas as barreiras psicológicas e sociais que impedem um adulto de aprender, chegamos à conclusão que as dificuldades são as mesmas mas em polaridades opostas. Não raras vezes esse é o argumento mais usado por adultos corajosos em aprender quando lhes parece que falham numa tarefa: o argumento de que “se eu fosse uma criança seria outra coisa”. Aos meus poucos alunos que me interpelam com essa hipótese, dou por mim a responder o mesmo: mas com certeza. Se fosse criança teria as facilidades que não tem em adulto; mas em adulto tem as facilidades que não tem em criança. O mesmo se aplica às dificuldades. Contudo não raras vezes a sociedade pode ser implacável: a título de exemplo, conheci a dada altura uma rapariga da minha idade que se quis aventurar também nas malhas da música. Tal como eu, pouco mais que duas dezenas de Primaveras tinha visto e contactou um professor da nossa faixa etária. A resposta foi peremptória: que estas coisas têm uma idade própria e que não valia a pena. Ora uma situação destas (que mais não é do que um pequeno espelho da maneira como é vista a pedagogia para adultos) é, com todo o peso que possa ser colocado nesta palavra, no mínimo aberrante e, sobretudo, elitista.

Até lá a dona Margarida toca e vai sonhando, o olho que se esqueceu de ver perdido talvez nalgo mais para além da cor… Segue para o centro paroquial quando estudar na mesa de madeira já não basta e vai cantando. E é essa canção que queria partilhar convosco e que guardarei com estima num jardim perdido junto ao peito…





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